Museu Rodin – Paris

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Hôtel Biron construído pelos arquitetos Jacques Gabriel e Jean Aubert

René-François-Auguste Rodin   nasceu em Paris em 12 de novembro de 1840.  Aos 14 anos ingressou na Petite École. Em 1858 foi  reprovado  por três vezes  no exame admissional da Escola de Belas Artes. Aos vinte e um anos se viu obrigado a abandonar os estudos para trabalhar como modelador e ornamentista. Em 1864, passou a frequentar os cursos do escultor minimalista Barye, no Museu de História Natural. Nesse mesmo ano sua primeira obra  “O homem de  nariz quebrado” foi recusada pelo  Salão de Paris por ser considerada inacabada. É sob a perspectiva de uma biografia marcada pela adversidade que a obra de Rodin  revela a genialidade do artista.

Uma viagem à Itália, em 1875, permitiu que  Rodin tivesse contato com obras renascentistas (especialmente as esculturas de Michelangelo e Donattello). Essa influência foi marcante, como ficou demonstrado com  “A idade do bronze”, concluída em 1876.  A perfeição das formas humanas  era tão impressionante que alguns críticos cogitaram que   teria  sido moldada diretamente sobre um modelo vivo e o acusaram de fraude. O que não foi levado em conta foi o fato do escultor ter se dedicado ao estudo de anatomia para aprimorar seus trabalhos.

Para apreciar o indiscutível talento e acompanhar a evolução artística de  Rodin  não há nada melhor do que visitar a “Rue de Varenne” nº 79, próximo à esplanada dos “Invalides” onde está reunido um valioso acervo: 6.775 esculturas, 9.000 desenhos e estampas, 6.400 peças antigas, 200 quadros( de Van Gogh e Monet entre outros), além de fotografias, arquivos e móveis  doados pelo próprio artista ao Estado Francês, em 1916,  sob a condição de que fosse criado esse museu.

Em Meudon, situada a menos de 20 km de Paris,  também há um  Museu Rodin instalado na  “Villa des Brillants”  –  onde o escultor morreu em 1917 e tem sua sepultura sob a estátua “O Pensador”.

Em Paris o “Hôtel Biron”, construído entre 1728 e 1731, situa-se numa área  ajardinada, com cerca de 3 hectares,  por onde estão espalhadas várias obras emblemáticas de Rodin, rodeadas por árvores simetricamente podadas e muitas roseiras –  além de outras espécies florais.

Ao lado esquerdo do portão de entrada está a escultura “Les Bourgeois de Calais”, cuja primeira edição foi inaugurada em 1895  diante da Prefeitura de Calais (responsável pela encomenda) para reverenciar um episódio ocorrido durante a Guerra dos Cem Anos. Após resistir bravamente ao cerco do exército inglês, durante 11 meses,  a cidade de Calais foi dominada pelo rei Eduardo III –  que exigiu a imediata  execução de seis pessoas influentes na sociedade local,  para que a vida dos demais habitantes fosse poupada.

A dramaticidade da situação está estampada na expressão corporal e facial de cada elemento que compõe o conjunto escultório. Felizmente, graças à intercessão da rainha Phillippa de Hainaut,  a pena de morte de Eustache de Saint Pierre e seus companheiros não foi cumprida,  mas a história dos seis condenados ficou eternizada no primoroso trabalho de Rodin.

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              “Les Bourgeois de Calais” no jardim do Museu Rodin em Paris                                          Imagem do site: https://commons.wikimedia.org

Além de Callais e Paris, há outras edições dessa escultura espalhadas pelo mundo: Dinamarca, Bélgica,  Inglaterra, Estados Unidos (Filadélfia, Washington e Pasadena),Suiça, Japão e Coréia do Sul.

Seguindo um pouco mais adiante, ao lado esquerdo  do “Cour d’honneur” (corredor central que conduz ao “Hôtel Biron”),  está a escultura “Les Trois Ombres”, representação das três sombras descritas no  canto XVI (o Inferno)  da Divina Comédia.

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“As três sombras” – obra exposta no Brasil em 2009

É curioso perceber que as três figuras são iguais, apenas  colocadas em posições diferentes, apontando para uma mesma direção. Essa tríade está no topo da “Porta do Inferno”, que  pode ser vista mais à esquerda do jardim.

Foi Rodin quem escolheu a Divina Comédia como tema para a encomenda que deveria ser instalada no Museu de Artes Decorativas de Paris (que havia sofrido um incêndio), proposta pelo governo francês em 1880.   O artista se dedicou durante mais de trinta anos a esse trabalho, compondo quase duzentas figuras (algumas das quais foram individualizadas e tornaram-se icônicas como “O Pensador”, “As três sombras” e  “O beijo” dentre outras) e morreu antes de ver a versão definitiva  fundida em bronze.

No Museu D’Orsay está exposto um molde em gesso da “Porta do Inferno”  medindo 6,0 m  de altura por  4,0 m  de largura e 1,00 m  de profundidade.

Em 1926  Mr. Jules Mastbaum,  um norte-americano  colecionador de arte e profundo admirador de Rodin, resolveu criar um museu com seu acervo particular (o maior fora da França) e encomendou as duas primeiras fundições em bronze da “Porta do Inferno”, sendo uma para o Museu Rodin de Paris e outra para o museu  da Filadélfia –  inaugurado em 29 de novembro de 1929.

Foram feitas outras cinco edições,  que se encontram:  no Museu de Arte da Universidade de Stanford, na Califórnia (E.U.A.); no Museu Nacional de Arte Ocidental de Tóquio (Japão);  no Museu de Arte da Prefeitura de Shizouka (Japão); no Rodin Gallery de Seul (Coréia) e em Zurique (Suiça).

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“Porta do Inferno”  iniciada em 1880 e finalizado em 1917

Depois de observar a figura alusiva ao poeta Dante Alighieri, que se destaca no alto da “Porta do Inferno”, é hora de caminhar para o lado direito do jardim e se postar diante da gigantesca escultura “O Pensador”, que havia sido inicialmente colocada em frente ao Panthéon  (em 1906) e foi transferida para o Hôtel Biron em 1922 .

Apresentada como uma obra individual em 1888,  teve sua dimensão ampliada em 1904. Existem  mais de vinte cópias, distribuídas em museus de diversos países.

Rodin descreveu as características mais marcantes da gigantesca figura absorta em seus pensamentos: as narinas distendidas, as sobrancelhas tensas, a testa franzida,  lábios comprimidos no torso da mão, o corpo curvado e os músculos retesados. É de fato muito impressionante a expressividade dessa escultura.

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Estátua “O  Pensador”  : 189 cm de altura, 68 cm de largura e 140 cm de profundidade

Essa vitalidade também pode ser percebida na estátua de Balzac, que se encontra um pouco mais à frente, ainda ao lado direito do jardim.

Em 1891  a “Societé de Gens de Lettres” incumbiu Rodin (então com 51 anos de idade) de criar um monumento a Honoré de Balzac.

Numa primeira versão elaborada em 1893 a figura do escritor, sem roupas,  apoia os braços sobre uma volumosa barriga (essa escultura pode ser vista no interior do Museu) – o que causou grande indignação.

Posteriormente, ao trabalhar na modelagem da roupa de uma nova versão da estátua, Rodin manteve definidos os volumes da barriga, braços e pernas e procurou transmitir a exuberância do gênio de Balzac, de forma nada convencional. A apresentação no Salão de Paris em 1898 chocou a opinião pública e levou à rejeição da obra  pela Sociedade que a encomendara.

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          Monumento a Honoré de Balzac no Museu Rodin              Imagem do site: https://commons.wikimedia.org

Após caminhar pela parte frontal do jardim,  admirando algumas das mais famosas esculturas de Rodin, é chegado o momento de adentrar o Hôtel Biron  e percorrer as 18 salas que evocam o processo criativo, a  técnica e a vida do artista.

Em algumas esculturas de Rodin estão retratadas pessoas próximas como a companheira de toda a vida:  Rose Beuret  (“Mignon” e “Jovem com chapéu florido”), assim como o pai Jean-Baptiste Rodin e o padre Eymard (que  aconselhou  Rodin a  deixar a vida de noviço no “Pères du Très Saint Sacrement” e retomar o trabalho artístico).

Podem ser vistas as obras consideradas polêmicas: ” O homem com o nariz quebrado”  , “Idade do bronze”, “O homem que caminha” e algumas versões e estudos para o busto de “Victor Hugo” e o “Monumento a Balzac”. Mas ali encontra-se também  aquela que abriu definitivamente  as portas para o reconhecimento artístico de  Rodin : “São João Batista pregando” (1878).

Outro aspecto bastante interessante é a importância que Rodin atribuía às mãos. Há esculturas de profunda expressividade como “A mão de Deus” ; ” A Catedral” ; “O Segredo”.

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       Simbolismo das mãos em “A Catedral” de Rodin                          Imagem do site: https://es.wikipedia.org

A passionalidade e o erotismo  afloram em várias obras: “A Danaid” ; “A Eterna primavera” ; “Eterno ídolo” e na consagrada “O beijo”, em que os corpos entrelaçados traduzem o movimento tanto  pela perfeição da musculatura como  pelo jogo de sombra e luz que se projeta nos diferentes ângulos de observação, acentuado pelo  contraste da textura entre a pedra esculpida e bruta.

        A  famosa  escultura  “O Beijo”  de  Auguste  Rodin                           Imagem do site: https://pt.wikipedia.org

Inicialmente concebida como uma das figuras da “Porta do Inferno”, a escultura teve como inspiração o canto V do Inferno da Divina Comédia:   a história de Francesca de Rimini  e seu cunhado Paolo, que se apaixonaram durante a leitura sobre o amor entre Lancelot e Guinevere e foram assassinados pelo marido Giovanni Malatesta. Curioso constatar que, apesar de toda a intensidade sugerida pela obra, o beijo não se consuma pois os lábios não chegam a se tocar.

No Hôtel Biron há também uma sala dedicada à escultora que foi assistente, musa e amante de Rodin: Camille Claudel.

Nascida em 1864, começou a trabalhar com Rodin em 1883. Mantiveram uma relação atribulada porque Rodin não aceitava abandonar a companheira Marie-Rose Beuret (com quem tivera  um filho em 1866).

Para simbolizar o fim do relacionamento Camille executou a magnífica  obra l”Âge Mûr” (que integra o acervo do Museu D’Orsay). Após a separação, a artista desenvolveu uma grave paranoia em relação a Rodin  e sua saúde foi se deteriorando,  entre 1906 e 1913, o que obrigou sua mãe e seu irmão Paul Claudel a interná-la em um asilo para doentes mentais –  onde morreu em 1943.

No espaço dedicado a Camille Claudell no Museu Rodin  pode ser vista a segunda versão da escultura “A idade madura” e outros trabalhos executados com forte carga de sentimentos e profunda sensibilidade.

Concluída a visita ao interior do Hôtel Biron, que em diferentes épocas abrigou outros artistas renomados como o escritor Jean Cocteau (1889-1963), o pintor Henri Matisse (1869-1954), a bailarina Isadora Duncan (1878-1927) e o poeta Rainer Maria Rilke (1875-1921)  a surpresa é a saída para  o magnífico parque  que se divide entre “jardin des sources” (onde está o “Le Café du Musée”) e o ” jardin d’Orphée.

Ao lado esquerdo da aleia central está a escultura “Orphée” e ao lado direito “la Meditation”.

No centro do espelho d’água a impressionante representação de “Ugolin” prestes a devorar seus filhos mortos.

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No Museu D’Orsay também está exposta uma escultura de Ugolin  feita por Rodin

Conde Ugolino della Gherardesca  aliou-se ao arcebispo Ruggieri degli Ubaldini para tomar o poder, mas foi traído por seu principal aliado e acabou prisioneiro na torre juntamente  com seus filhos: Uguccione e Gaddo e também os netos: Anselmuccio e Brigata . Após a morte dos filhos o conde, ensandecido pela fome, teria devorado seus cadáveres. Por essa razão foi condenado (no canto XXXIII do Inferno de Dante Alighieri) a roer o crânio de Ruggieri por toda  eternidade.  A beleza e a tranquilidade do entorno amenizam a visão dessa angustiante escultura.

Contornando o espelho d’água  é possível observar a estátua “Le genie du repos eternel” , cuja 11ª edição foi  doada, por um empresário brasileiro,  à  Pinacoteca de São Paulo.

A  vista do Hotel Byron,  junto ao espelho d’água,  é magnífica!

Retornando pela alameda paralela ao “Jardin d’Orphée” (mais à direita, caminhando  na direção da sede do Museu), encontra-se a estátua de  “Pierre de Wissant” –  um dos “burgueses de Calais”. Adiante está a “Galerie des Marbres”, projetada em 1971 como uma reserva (acessível ao público) de peças trabalhadas por alunos de Rodin, sob a supervisão e com as técnicas do artista.

Junto ao portão de entrada está a Capela  construída em 1876, pelo arquiteto Lisch,  em estilo neogótico e que foi transformada em espaço expositivo,  quando da abertura do Museu. Em 2005 o arquiteto Pierre-Louis Faloci promoveu uma ampla reforma para adaptação do espaço como sala de exposição, auditório (com entrada pelo Boulervard des Invalides, 21) e loja/livraria.

O Museu Rodin é basicamente  mantido com os valores obtidos na fundição, em bronze, de moldes originais (apesar do Governo francês ter  limitado a  apenas doze  tiragens de um mesmo molde).